Quando criança eu tinha medo do bicho do rabo de fogo. Ser imaginário que meus irmãos mais velhos criaram para eu poder parar de usar chupeta. Alguns anos depois descobri que não existia bicho do fogo nenhum. Então passou o meu medo do bicho do fogo. Assim como troquei de brinquedo preferido, troquei de medo. Fico a pensar que em nossa vida tudo passa, e como diz uma frase muito clichê que um grande amigo sempre diz: até a uva passa. Tudo passa, momentos bons passam, momentos ruins passam. Momentos divertidos com amigos passam. Meu medo agora é o medo de perder.
Sou uma pessoa saudosista. Tenho saudades das viagens de trem para casa da minha avó quando criança. Viajar para casa da minha avó tinha um significado diferente do que tem hoje. Tenho saudades de quando minhas irmãs me levavam para casa delas, parecia que estava indo para Disney. Saudades de quando meus irmãos me chamavam de “vibrazinha”. Tenho saudades da TV Colosso, saudades das Chiquititas, saudades de tudo que me lembra momentos felizes do meu passado.
Tenho saudades da minha simplicidade, saudades da minha inocência. Tenho saudades de amigos da escola que nunca mais vi. Apego-me muito fácil a pessoas e a momentos, e por muitas vezes essas pessoas e momentos passaram em minha vida assim como os anos. E por perder: o medo do bicho do fogo; as viagens de trem para casa da minha avó e seu sentido; a casa das minhas irmãs e meus irmãos implicando comigo; a TV Colosso e Chiquititas; os amigos da escola e momentos felizes, eu deixo parte de mim em todas essas percas. Partes de mim vão ficando pelo caminho da vida e os vazios na minha alma aumentam.
O pior é que eu sei que sempre esses momentos e pessoas especiais virão e passarão. Não dá para controlar, não da para trancar numa caixa. Não dá para dar um replay ou locar para ver de novo como num filme que gostamos muito. Eu mudo, as pessoas mudam e por isso não dá para repetir o que vivemos, dá apenas para lembrar. Então tudo que fica são lembranças; saudades; lágrimas; sorrisos; fotos; cartas e partes de mim pelo caminho... E buracos na alma.